• Redação - 09/06/2026 21:39 || Atualizado: 09/06/2026 21:44

O banqueiro Daniel Vorcaro apresentou mudanças significativas em sua segunda proposta de delação premiada e passou a adotar uma versão mais dura sobre sua relação com o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Segundo pessoas que acompanham as negociações, o empresário deixou de tratar pagamentos, viagens e benefícios concedidos ao parlamentar como simples gestos de amizade e passou a descrevê-los como contrapartidas destinadas a obter apoio político para interesses do Banco Master.

Na primeira tentativa de acordo, elaborada sob orientação do advogado José Luís de Oliveira Lima, Vorcaro afirmava que mantinha uma relação próxima com Ciro Nogueira e que os benefícios concedidos ao senador não estavam vinculados a qualquer pedido ou favorecimento. A proposta, porém, foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

Após a mudança na equipe de defesa, que passou a ser coordenada pelo advogado Sérgio Leonardo, o banqueiro reformulou seu relato. Na nova versão, ele sustenta que os repasses e vantagens concedidos ao senador tinham o objetivo de aproximá-lo e influenciar sua atuação em temas de interesse do Banco Master no Congresso Nacional.

A alteração da narrativa ocorreu após o avanço da Operação Compliance Zero, investigação que apura supostos esquemas de corrupção, lavagem de dinheiro e tráfico de influência envolvendo o Banco Master. Em uma das fases da operação, a Polícia Federal apontou suspeitas de pagamentos mensais de aproximadamente R$ 300 mil a uma empresa ligada ao senador piauiense. A suspeita dos investigadores é que esses valores estariam relacionados à defesa de pautas favoráveis ao banco no Congresso.

Ciro Nogueira nega qualquer irregularidade. Após a operação, o senador afirmou que nunca apresentou projetos ou emendas para beneficiar especificamente o Banco Master e também rejeitou qualquer ligação entre os pagamentos investigados e sua atuação parlamentar.

Além de endurecer a versão sobre a relação com o senador, Vorcaro acrescentou novos elementos à delação. Entre eles, informações sobre supostas irregularidades na captação de recursos de fundos de previdência municipais e estaduais pelo Banco Master, tema que também é alvo de apuração pelos órgãos de investigação.

Apesar das novas informações, investigadores avaliam que a segunda proposta de delação não trouxe avanços relevantes diante do volume de provas já obtidas pela Polícia Federal, especialmente a partir da análise do celular do banqueiro. Nos bastidores, a expectativa é de que a proposta enfrente dificuldades para ser homologada.

As investigações também revelaram a proximidade entre Daniel Vorcaro e Ciro Nogueira. Em mensagens encontradas pela Polícia Federal, o banqueiro se refere ao senador como “um dos meus grandes amigos de vida”. Em uma conversa com sua então noiva, Martha Graeff, ao enviar uma foto ao lado de Ciro, Vorcaro escreveu: “É um senador. Muito amigo meu. Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida”.

Os dois também participaram de diversos eventos juntos. Um dos encontros mais citados pelos investigadores ocorreu no casamento de Duda Nogueira, filha do senador, realizado em agosto de 2024, em Angra dos Reis. Dez dias após a cerimônia, Ciro apresentou uma proposta que ficou conhecida nos bastidores políticos como “Emenda Master”.

A medida previa aumentar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) por CPF e por instituição financeira. A proposta foi interpretada por integrantes do mercado financeiro e por políticos como uma iniciativa que poderia beneficiar diretamente o Banco Master, cuja estratégia de captação de recursos era fortemente baseada em produtos cobertos pelo FGC. O texto, no entanto, não prosperou e acabou não sendo acolhido pelo relator da matéria.

Enquanto a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República analisam a nova proposta de colaboração, Daniel Vorcaro permanece em uma cela especial na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília. Caso a delação seja rejeitada, existe a possibilidade de o banqueiro ser transferido para uma unidade prisional comum.

Procurado sobre as informações atribuídas à nova versão da delação, o senador Ciro Nogueira ainda não se manifestou.

Fonte: Estadão