Redação - 14/05/2026 10:00 || Atualizado: 14/05/2026 10:05
O clima no comando da direita bolsonarista no Piauí ficou tenso nas últimas 48 horas. Encurralado pela quinta fase da Operação Compliance Zero e pelas novas revelações sobre o filme “Dark Horse”, o senador Ciro Nogueira (PP) passou a cobrar do próprio grupo a realização de uma entrevista coletiva conjunta, sob o mote “Em defesa da direita piauiense”, para blindá-lo publicamente e, ao mesmo tempo, fechar fileiras em torno do senador Flávio Bolsonaro (PL). A demanda foi endereçada diretamente ao pré-candidato do Progressistas ao Governo, Joel Rodrigues, e ao prefeito de Teresina, Silvio Mendes (União Brasil) — que, segundo interlocutores, hesitam em subir ao palanque no atual momento e ainda não confirmaram data nem formato do ato.
A cobrança de Ciro chega num momento em que o cerco jurídico se fechou de forma quase simultânea sobre ele e Flávio. Em 7 de maio, a PF deflagrou a quinta fase da Operação Compliance Zero, com dez mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Ciro Nogueira e seus familiares no Piauí, em São Paulo, em Minas Gerais e no Distrito Federal — ação autorizada pelo ministro do STF André Mendonça, que também determinou o bloqueio de mais de R$ 18 milhões em bens dos investigados.
A investigação aponta o senador como “principal beneficiário” de um esquema de lavagem de capitais e descreve um arranjo “orientado por benefício mútuo, extrapolando relações de mera amizade” com o banqueiro Daniel Vorcaro. Dias depois, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, e sua equipe deixaram a defesa do senador — sinal interno de que a crise é mais grave do que o discurso público admite.
Na sequência, veio o capítulo Flávio. Reportagem revelou que Vorcaro pagou cerca de R$ 61 milhões para financiar o filme biográfico “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, com repasses entre fevereiro e maio de 2025 direcionados a um fundo nos Estados Unidos vinculado a um aliado de Eduardo Bolsonaro. Em áudio divulgado, Flávio Bolsonaro admitiu ter pedido dinheiro a Vorcaro e tratou o repasse como “patrocínio privado para um filme privado” . Para Ciro, esse foi o gatilho político que faltava: com Flávio também exposto, a tese de “perseguição contra a direita” voltaria a fazer sentido como narrativa de unidade — e a coletiva conjunta seria o palco para reafirmá-la.
O problema é que Joel e Silvio fazem outra leitura. O pré-candidato ao Governo vinha tentando construir uma agenda própria, e já enfrenta isolamento em incursões pelo interior, sem a presença de aliados de peso e sem o suporte logístico antes garantido por Ciro. Subir num palanque de defesa explícita ao padrinho em meio à fase mais aguda da operação significa carimbar a candidatura com o passivo do senador num momento em que o próprio PL recua: o partido adiou qualquer definição sobre aliança com Ciro após a operação, manteve Toni Rodrigues como pré-candidato ao Governo e passou a tratar o senador apenas como “parceiro” Aderir ao mote “Em defesa da direita” sem ter o PL ao lado seria, na prática, assinar sozinho a fatura.
Silvio Mendes tem cálculo ainda mais delicado. No primeiro compromisso oficial de 2026, o prefeito se reuniu com o governador Rafael Fonteles e condicionou seu apoio nas eleições à ajuda à gestão de Teresina, afirmando que “quem melhor tratar Teresina, pode contar com o apoio do prefeito Silvio Mendes nas eleições gerais deste ano”. Esse pragmatismo institucional, costurado com o Palácio de Karnak, ruiria no instante em que o prefeito se sentasse ao lado de Joel para defender publicamente Ciro e Flávio. Internamente, auxiliares do prefeito argumentam que o seminário do União Brasil realizado no último sábado, em Teresina, já cumpriu a função simbólica de reafirmar apoio às pré-candidaturas de Joel e Ciro — e que uma coletiva nacionalizada agora seria expor o flanco em troca de pouco.
O impasse expõe o real estado da articulação oposicionista no Piauí: um pré-candidato sem musculatura para sustentar voo próprio, um prefeito que prefere o diálogo institucional ao confronto ideológico, e um padrinho político que, encurralado, exige demonstrações públicas de lealdade que os aliados já não querem ou não podem pagar. A pergunta que circula nos bastidores é direta — Joel e Silvio toparão dividir o palanque com Ciro neste momento, ou o senador será obrigado a fazer sozinho, ao lado da defesa jurídica, o ato de blindagem que vinha desenhando?
Se a coletiva sair, será o teste mais visível da capacidade da direita piauiense de manter unidade sob pressão. Se não sair — ou se sair sem Silvio, ou sem Joel —, será a confirmação pública de que o projeto liderado por Ciro chegou a 2026 com o passivo aberto, os palanques desalinhados e os aliados calculando, em tempo real, o custo de cada metro de proximidade.
Até o fechamento desta matéria, as assessorias de Ciro Nogueira, Joel Rodrigues e Silvio Mendes não confirmaram oficialmente a realização do ato.