• Redação - 09/01/2026 11:32 || Atualizado: 09/01/2026 11:37

O portal inicia uma série de reportagens para expor os principais problemas enfrentados pelos teresinenses diante do que vem sendo classificado como uma gestão ineficiente do prefeito Silvio Mendes. E o primeiro retrato dessa realidade escancara uma contradição grave entre prioridades administrativas e as urgências da saúde pública.

Teresina vive hoje uma situação alarmante na área de zoonoses. O único local do município responsável pela realização do exame de raiva humana e animal, a Gerência de Zoonoses, está com o diagnóstico comprometido. O motivo é tão grave quanto simbólico: falta ração adequada para os camundongos utilizados nos testes laboratoriais, o que torna os exames inconclusivos. O biotério da unidade encontra-se fechado, impossibilitando a realização da prova biológica necessária para confirmar casos suspeitos da doença. Em outras palavras, a capital do Piauí está, na prática, sem capacidade técnica plena para diagnosticar raiva.

O cenário estrutural da Zoonoses é de abandono. O prédio apresenta condições precárias, colocando em risco servidores, animais e a própria população. Relatórios internos apontam que os camundongos de laboratório chegaram a ser alimentados com ração para gatos, prática inadequada, caracterizada como maus-tratos e que fere a legislação ambiental. Faltam ainda anestésicos e insumos básicos para procedimentos essenciais, inclusive a eutanásia humanitária de animais em estado terminal ou com sintomas neurológicos graves.

Essa precariedade não é um problema isolado. Recentes mortes por doenças evitáveis expõem a falência das políticas de vigilância em saúde do município. A morte do jovem Igor Barbosa, vítima de dengue grave, e de Micael Morais, em decorrência do calazar, revelam falhas no combate ao mosquito Aedes aegypti e no controle da leishmaniose visceral. A frota da Zoonoses está sucateada, com mais de 70% dos veículos inoperantes, incluindo a carrocinha, parada há meses, inviabilizando o recolhimento de animais com suspeita de zoonoses.

Falta planejamento, integração entre secretarias, campanhas educativas e diálogo com a comunidade. Servidores relatam omissão gerencial, ausência de reuniões técnicas, ambiente de trabalho hostil e até assédio moral. Enquanto isso, ações básicas como mutirões de limpeza, integração com as SDUs e estratégias intersetoriais seguem inexistentes ou ineficazes.

Paradoxalmente, em meio a esse colapso na saúde pública, a gestão municipal anuncia estrutura e recursos para a realização do Carnaval em Teresina. Palco, iluminação e banheiros químicos estão garantidos para a festa, enquanto exames essenciais de saúde pública seguem sem condições mínimas de funcionamento.

Uma coisa é certa: não precisa de ninguém para organizar o bloco do sujo, pois o prefeito de Teresina já providenciou tudo direitinho para o evento.

 

RELATÓRIO DE DIAGNÓSTICO SITUACIONAL ATUALIZADO – GERÊNCIA DE ZOONOSES DE TERESINA

1. Introdução

A Gerência de Zoonoses de Teresina (GEZOON) é um setor estratégico da saúde pública municipal, responsável por ações de vigilância, prevenção e controle de zoonoses como raiva, leishmaniose, dengue, zika, chikungunya e outras doenças transmitidas por vetores e animais. No entanto, a atual situação do setor revela um cenário crítico, que compromete diretamente a capacidade de resposta do município frente às crescentes demandas de saúde pública, inclusive com óbitos recentes evitáveis.

2. Fatos Graves Recentes

Óbito de Igor Barbosa, jovem vítima de dengue grave, ocorrido recentemente em Teresina, revela a ineficiência das ações de combate ao Aedes aegypti e ausência de respostas rápidas.

Óbito de Micael Morais, por calazar (leishmaniose visceral), confirma a fragilidade do sistema de vigilância e controle da leishmaniose, agravada pela falta de estrutura da GEZOON.

No Biotério da GEZOON, os camundongos de laboratório estão sendo alimentados com ração para gatos, o que é inadequado, caracteriza maus-tratos e infringe a Lei Federal nº 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais), em especial seu art. 32, que pune maus-tratos a animais mantidos sob custódia do poder público.

Falta de anestésicos e outros insumos básicos continua prejudicando procedimentos fundamentais, como a eutanásia humanitária de animais com sintomatologia nervosa ou em estado terminal.

3. Situação Estrutural da Gerência de Zoonoses

Infraestrutura física precária, comprometendo segurança e salubridade dos servidores e dos animais;

Frota sucateada, com mais de 70% dos veículos inoperantes. A carrocinha está parada há meses, inviabilizando a remoção de animais com suspeita de zoonoses;

Ausência de planejamento integrado, especialmente no combate às arboviroses. As ações são fragmentadas, pouco efetivas e sem articulação com outros órgãos da Prefeitura.

Falta de integração com as SDUs, Secretaria de Limpeza e outros órgãos que poderiam apoiar ações de campo, como mutirões de limpeza e remoção de criadouros do mosquito da dengue.

Falta de campanhas educativas e envolvimento da comunidade nos bairros com maior incidência de casos.

4. Omissão Gerencial e Abandono Institucional

A atual gestão da GEZOON tem se mostrado omissa, sem realização de reuniões técnicas com os servidores, sem motivação da equipe e sem planejamento estratégico.

Persistem relatos de assédio moral, com ameaças verbais e ambiente de trabalho hostil, inclusive sendo ignoradas sugestões técnicas de servidores experientes.

5. Recomendações e Propostas Urgentes

Para reverter o atual cenário, recomenda-se:

Realização imediata de mutirões de limpeza integrados, envolvendo a GEZOON, SDUs, Secretaria de Limpeza, Defesa Civil e Secretaria Municipal de Educação (para ações educativas);

Solicitação de apoio ao Exército Brasileiro, como já ocorreu em outros momentos críticos, para ampliar a cobertura de visitas domiciliares e aplicação de inseticida;

Revisão do protocolo de monitoramento e resposta às arboviroses, com mapeamento atualizado de bairros prioritários;

Criação de força-tarefa intersetorial para o enfrentamento das arboviroses e leishmaniose, com metas claras e coordenação centralizada;

Aquisição emergencial de insumos básicos, como anestésicos, ração específica para camundongos e material de proteção individual;

Valorização dos servidores, com participação ativa nos processos decisórios, capacitação contínua e combate ao assédio moral;

Reestruturação administrativa da GEZOON, com elevação da Gerência ao status de Diretoria, diante da complexidade, volume de ações, número de servidores e importância estratégica da unidade para o SUS municipal.

6. Conclusão

A atual situação da Gerência de Zoonoses é crítica e exige providências urgentes, não apenas por responsabilidade legal e administrativa, mas por respeito à vida humana e animal. As mortes recentes por doenças preveníveis expõem a fragilidade do sistema. Sem ações integradas, apoio institucional e valorização técnica dos servidores, o município continuará acumulando perdas evitáveis.